Ajustamento Criativo x Ajustamento Neurótico

25 nov , 2018 Psicologia

O que significa, de fato, dizer que a criatividade é um recurso fundamental para uma vida psíquica saudável? Se diante de algum acontecimento novo, desafiador ou ansiogênico, você consegue se adaptar bem e criar uma resposta funcional, houve um ajustamento criativo; quando não, acontece um ajustamento neurótico. No texto de hoje, conversaremos sobre esses dois movimentos adaptativos.

Ainda no fluxo do último texto -onde falei sobre criatividade- trago mais um conteúdo dentro dessa temática, agora numa relação mais estreita com a saúde emocional. No curso da vida estamos sempre buscando satisfazer nossas necessidades, sejam fisiológicas ou psíquicas, para levarmos uma vida saudável e equilibrada.

Num jeito de ser saudável nós conseguimos identificar nossas reais necessidades e conseguimos também mover recursos e ações para satisfazer e alcançar o que queremos. Se enquanto escrevo esse texto percebo minha boca seca, posso parar por um momento, ir buscar um copo d’água, beber e retomar a escrita. Num jeito de ser disfuncional eu poderia a) não notar a minha boca seca ou b) conscientizar-me da  minha necessidade de água mas não saber como atendê-la.

Este exemplo é pequeno e puramente ilustrativo apenas para elucidar o que acontece também nas questões emocionais pois encontramos diversos impedimentos, desconhecimentos e barreiras que vão desnutrindo nossa vida emocional.

A neurose é o resultado da repetição das tentativas de evitar um conflito e manter o equilíbrio mas que nessa fuga, o sujeito recorre a modos de ser muito antigos para agir no presente e lidar com os conflitos. O chamado ajustamento neurótico que,  sendo um contraponto ao ajustamento criativo, é o que fazemos diante de um problema que não conseguimos contornar, ao recorremos à essas formas desatualizadas e congeladas do passado. Esse movimento interrompe o processo de perceber o que realmente precisamos para dar conta de alguma situação que surja.

Nesse caso, a necessidade genuína não alcança seu ponto de satisfação por uma dificuldade frequente que a pessoa possa ter, por exemplo, em identificar suas reais necessidades. Mas é importante dizer que esse modo disfuncional de agir na vida, um dia foi, sem dúvidas, uma ajustamento criativo e necessário.

Ficou confuso ou parecendo contraditório? Vou tentar explicar o que eu quero dizer com isso.

Se em alguma situação de sua vida surgiu a necessidade de falar e se impor, por exemplo, mas você não encontrou apoio e suporte externo para agir assim ou então você tenha entendido que a situação era extremamente ameaçadora e prejudicial, escolher não atender a essa necessidade de falar, pode ter sido um  ajustamento criativo para suportar e passar por essa situação. A melhor saída encontrada por você naquele momento.

Você deu-se conta de sua necessidade interna (preciso falar), da realidade externa (não tenho suporte ou não é o melhor no momento) e escolheu não satisfazê-la abaixando portanto sua voz e recolhendo  sua presença (reprimindo, segurando, não dando vazão o excitamento que emergiu e te fez querer falar).

Esse comportamento foi necessário e criativo por questões de sobrevivência ou de manutenção de alguma relação importante. Ele também se deu da melhor forma que você poderia ter agido e de acordo com os recursos emocionais que você tinha naquele contexto. Deixar de lado algo que não te fará bem em determinado momento é um grande gesto de amor-próprio!

Entretanto, se em algum momento da sua trajetória, essas situações assim começarem a tornar-se frequentes e você passar a viver suas experiências sempre contendo o excitamento que surge, acontecerá a formação de  um hábito, de um jeito de ser estereotipado e baseado numa experiência passada. Aquilo que antes era criativo, pois esteva em contato com o momento presente, deixou de ser quando você passa a utilizá-lo em outros contextos. “Por isso é que se diz que no ajustamento neurótico, a pessoa dá respostas antigas, a situações novas. Não há contato com o momento presente e a pessoa não consegue assimilar que aquelas respostas que serviram lá atrás, não se encaixam mais com a situação atual”.

Um ajustamento desse tipo, que não satisfaz as necessidades do organismo e não transforma o meio, age na manutenção de um jeito de ser enrijecido, estereotipado e inflexível; sem criatividade. Quando somos confrontados para realizar alguma coisa que nos consideramos sem condições de fazer, entramos numa emocionalidade ansiosa e passamos a evitar, de todos os modos possíveis, nos expormos às situações que  possam gerar esse desconforto. Se surge uma situação nova e você não consegue responder a ela, o atalho mais tentador é desenvolver uma tendência de buscar, através dos comportamentos padronizados,  a evitação dessas experiências que possam gerar qualquer sensação de vazio e de desordem.

Abrir mão do ajustamento neurótico, manter-se no momento presente pra conscientizar-se da necessidade e agir criativamente, é um movimento existencial que passa pelo medo da mudança. Abandonar o jeito de sempre e desenvolver o jeito do agora, ou seja, agir, sentir e pensar conforme o que é necessário na situação atual, é  um convite, uma oportunidade para atualizarmos nosso background existencial e reconhecer o que é do passado e precisa permanecer lá por estar desatualizado e não servir mais.

Algo que eu trabalho muito com os meus pacientes é a construção de uma nova percepção acerca desse medo que muitos tem de mudar. Continuar sendo o que sempre se foi, na rotina de sempre, nas experiências de sempre apenas por já ser  o conhecido, não significa e não garante que dará tudo certo e que sempre vai acontecer tudo da melhor maneira possível. As pessoas tem medo de mudar, por não saber o que o novo irá trazer mas parece que não percebem que o que elas já tem, traz angústia e sofrimento.

Chegou a hora de dar um chega pra lá nessas formas antigas e neuróticas de se estar na vida. O medo de mudar, de criar e a evitação de novidade é um apego a esses padrões mas que em termos de saúde e funcionalidade já estão demasiadamente antigos e sem serventia. Falta o que para você perceber que o sapato está apertando, que seu pé está machucado e que insistir em usá-lo não ira torná-lo mais confortável com o passar do tempo?

“A tentativa de repetição de padrões de comportamentos já conhecidos, a não mudança e não exposição a situações novas é uma tentativa dos indivíduos de não lidar com a ansiedade gerada pelo inesperado. Quando há uma cristalização deste padrão, há um padrão neurótico de comportamento, que vai levando ao empobrecimento das experiências do sujeito, a um repertório repetitivo e limitado de comportamentos que não propiciam a mudança.”

Insistir em modelos antigos é forçar seu pé, número 38, a entrar num calçado número 35. Dói, né? Por mais que um dia o calçado 35 tenha te servido perfeitamente, hoje ele não serve mais. Dói né?  O precioso do ajustamento criativo é a mudança, é a transformação de uma adaptação que causa sofrimento em modos atuais, saudáveis e bem mais leves. Eu garanto! Então permita-se.

Com carinho,


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