Carta às famílias de quem tem depressão

28 out , 2019 Psicologia

O apoio e a compreensão de familiares são essenciais no tratamento e no bem-estar de quem tem a doença. Vou compartilhar com vocês uma carta escrita pelo jornalista Diogo Rodrigues, fundamentada na sua trajetória em relação à depressão.

Caros familiares de pessoas que têm depressão,

Um dos motivos pelos quais comecei a escrever sobre esse assunto foi para também fornecer informações àquelas pessoas que acompanham nosso sofrimento na primeira fileira: os familiares. Não que se trata de um campeonato, mas vocês são, provavelmente, os que mais sofrem conosco.

A família é, na maioria dos casos, o núcleo formativo de uma pessoa. É onde ela nasce e onde se desenvolve durante os primeiros e essenciais anos de vida. Quem já fez análise sabe que se passa um bom tempo falando sobre a infância, adolescência e a relação com pais e mães, irmãos e irmãs. Quando crescemos e nos tornamos adultos, a família muitas vezes se expande e inclui nossos companheiros e companheiras, filhos, cunhados, sogras e sogros.

A depressão causa um impacto grande em qualquer família. Pois gera uma mistura de culpa (“será que a culpa é nossa?”) e a natural preocupação com o bem-estar e a saúde de quem sofre deste transtorno. Uma pessoa deprimida pode ficar irritadiça, ausente e mudar a dinâmica das relações. Todos são afetados.

Eu vi pessoalmente o impacto que meu transtorno causou e causa na minha companheira, na minha mãe e meus irmãos. Me afastei da família estendida (primos e tios). Tive uma grande dificuldade em explicar a todos o que estava acontecendo comigo e como isso afetava até minha personalidade.

Uma das primeiras coisas que entendi rapidamente foi que quanto mais próxima a pessoa é de nós, mais ela se sente culpada por nossa depressão. Então foram horas de conversa até convencer meus familiares que o transtorno não é necessariamente criado pela família, especialmente em um ambiente acolhedor em que eu cresci. E passei mais tantas horas explicando o que se passa em minha mente para que ela compreendesse que tudo aquilo.

Para fazer isso, foi necessário procurar uma linguagem que eu não possuía, além de desenvolver uma consciência das minhas próprias emoções e limitações. Antes, eu simplesmente ficava irritado com as pessoas e distribuía patadas.

Ainda faço isso, mas consigo me antecipar a alguns arroubos – e pedir desculpas quando eles são inevitáveis. Hoje sei identificar, por exemplo, uma crise de ansiedade, e evito conversas difíceis quando ela está ocorrendo.

Além disso, evito também sobrecarregar as pessoas próximas com aflições passageiras e crises de pessimismo. Vejam bem, não é que eu guarde as coisas para mim, nada disso.

Mas hoje procuro conversar sobre assuntos relativos à depressão sem esperar que minha companheira ou minha mãe resolvam minhas questões para mim. Já cometi esse erro várias vezes: despejar ansiedades em pessoas queridas sem critério algum. Precisamos lembrar que elas também têm suas questões e se preocupam (muito) conosco.

O papel das famílias vai muito além da preocupação. Nassir Ghaemi, professor de psiquiatria de Harvard, defende que o diagnóstico da depressão tenha que incluir sempre a família.

Na opinião dele, familiares estão numa posição privilegiada para avaliar se alguém está ou não bem. Assim, são também essenciais para incentivar e lembrar os pacientes que eles devem tomar seus remédios, no caso de pessoas que precisam tomar medicações.

Ajudar a cuidar de uma pessoa com qualquer transtorno de saúde mental é custoso, não há dúvida disso. Por isso, o psicólogo David Miklowitz, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, criou um tratamento que também contempla as famílias.

Não é incomum que as pessoas próximas desenvolvam um sentimento de hostilidade em relação à pessoa deprimida, e Miklowitz trabalha justamente nessas fricções.

De acordo com ele, a relação se torna difícil por muitos motivos. Pessoas próximas ficam cansadas de lidar com as emoções erráticas dos pacientes; por outro lado, exames de imagem mostram que o cérebro de uma pessoa deprimida aciona os mecanismos de medo quando um familiar a critica.

Tudo isso para dizer às nossas queridas famílias: vocês são essenciais para o nosso bem estar. Já contei aqui que a depressão tem múltiplas causas. Portanto, a não ser em casos de grandes traumas, familiares não são os culpados pela nossa depressão e ansiedade.

Precisamos de vocês para que consigamos nos recuperar. Remédios e terapia são aliados importantes, vocês são essenciais.

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. No instagram ele é @falandodepressao.

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