De quem é a culpa?

16 abr , 2020 Psicologia

Atualmente a pandemia vem sendo responsabilizada por muito acontecimentos: o isolamento social, a alteração na economia, mudanças no trabalho, na rotina, no nosso lazer e nas nossas relações. Já li várias reportagens sobre o aumento no número de divórcio na China por causa da pandemia também. “Gente, a convivência forçada pela pandemia está destruindo o meu relacionamento”, você já viu algo do tipo?

A gente tem hábito de querer resolver só quando piora. Enquanto está doendo a gente finge que dá pra lidar, a gente acha que tem todo tempo do mundo e que em algum momento vamos conseguir dar atenção ao que dói. Mas parece que esse momento vai cair do céu como num passe de mágica ou vai acontecer só quando tiver tempo, dinheiro e depois de cuidar de outras coisas.

Acho curioso que quando desaba, aparece tempo, dinheiro e as prioridades são redimensionadas. Tomar atitude depois que tudo desabou é ser refém das circunstâncias que às vezes foram construídas aos pouquinhos por nós mesmos. Às vezes o que faz desabar não é algo sob nossa responsabilidade (como a pandemia) mas é o nosso descuido anterior com essa situação que faz com que, diante do imprevisto, a casa caia. Se houvesse cuidado prévio a casa ia só estremecer, certo?

Nesse tempo de pandemia eu recebi alguns pacientes novos que trazem as suas dificuldades emocionais como  se tivessem surgido agora por causa do corona vírus.  Às vezes, em terapia, é necessário dizer verdades que doem, sabe? Mas eu não gosto de colocar essas verdades assim, logo no começo (verdades cruéis demais para serem ditas inicialmente hahahah). Eu deixo pra ir mais profundamente depois que já conheço bem a superfície.

Sentir tristeza, um pouco de apatia, desconforto, desânimo, estar com a rotina, apetite e sono desrregulados faz parte do momento presente mas é o nível de intensidade e de prejuízo dessas vivências que me sinaliza se era um quadro presente (e ignorado) ou não. Estabilizar uma casa num terreno que tremeu é bem diferente de reconstruir uma casa que caiu, concorda?

“Você está falando aqui pra mim da sua dependência emocional, da sua ansiedade, do seu esgotamento mental por causa do trabalho, da dificuldade em agir, do pessimismo [insira aqui qualquer tema], certo? Você veio a terapia para cuidar e melhorar essas aspectos que a pandemia causou, não foi? Mas há quanto tempo sua vida é assim? E por que hoje foi o momento de você parar e olhar para isso?”

Geralmente a gente age quando não dá mais. E aí o processo de consertar essas coisas acontece de uma maneira diferente pois a pessoa que está passando por isso já foi  muito enfraquecida por essa situação. Eu deixo isso bem estabelecido com os meus pacientes para que a gente saiba que será necessário unir esforços maiores.

Você está colocando na conta da pandemia experiências de sofrimento que já viva antes?

Eu tenho observado que pessoas que já vivenciavam baixa autoestima, ansiedade, dependência emocional, burnout  de uma maneira presente e com bastante prejuízo, tem essas experiências agravadas no atual cenário. As pessoas que tem passado por grandes desconfortos já estavam expostas a esses desafios. Nada se intensifica repentinamente. A última gota do copo só transborda porque já haviam milhares de outras gotas ali.Aquilo que era evitado agora está evidenciado.

Colocar a culpa na pandemia ainda é uma maneira  de se enganar. Não foi a pandemia que criou esse desgaste; a pandemia te mostrou o que estava acontecendo de uma maneira que você não conseguiu mais dizer que é pouca coisa, que você está no controle ou que uma hora vai passar.

Aos meus pacientes que inciaram o acompanhamento psicológico eu tenho dito que ter procurado a terapia agora já uma excelente maneira de começar a se responsabilizar.  E isso é um passo e tanto.

Sem dúvida a pandemia tem fomentado dores e o que nos permite lidar de maneira saudável com esse contexto não é ficar procurando culpados mas sim a certeza de que o que está acontecendo não é tudo, podemos ir além. Juntos, podemos mais.

Com carinho,


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