Realização Pessoal e Profissional

9 dez , 2018 Orientação Profissional,Psicologia

“Sorte no amor, azar no jogo”. Ganhar bem numa carreira mediana ou satisfazer-se com o trabalho mas ter um salário ínfimo. “Não se pode ter tudo nessa vida!” Será mesmo que não podemos ter uma vida equilibrada ou minimamente satisfatória em todas as áreas?

De modo geral, costumamos acreditar que estar bem em uma área da vida anula a necessidade de estar bem em outra. Uma vez eu li uma entrevista com uma importante jornalista brasileira que, com muitos anos de casada, não tinha filhos. Ao ser questionada sobre isso ela disse ‘Não podemos ter filhos, mas ele comemora até hoje o nosso primeiro beijo e lembra de todas as nossas datas’. Esse sistema de compensação, esconde insatisfações e pode se tornar um fardo.

É muito comum que pessoas fora do padrão desenvolvam um jeito de ser visando serem incluídas e aceitas nesse mesmo padrão que as exclui. Quem nunca conheceu uma pessoa gorda extremamente divertida, engraçada e não raro comicamente autodepreciativa?  A questão é  viver sempre compensando nossos desejos não realizados e insatisfações com ‘mas’. Não estou casada mas já fui três vezes a Europa. Não tenho um bom emprego mas minha família é linda. Não estudei na universidade que queria mas meu feed do Instagram é invejável. Não tenho isso mas sou inteligente, mas tenho aquilo, mas sou tal coisa e por aí vai… Estamos sempre compensando nossos problemas e faltas mas isso não os resolve nem as supre.

É muito comum olhar para a carreira desse modo angustiante que está sempre contrabalanceando realização pessoal X financeira X profissional. Ter tempo para a família, lazer ou hobbies X investir meu tempo trabalhando cada vez mais para ter cada vez mais dinheiro. Será mesmo que a vida precisa ser essa eterna briga? Dá para equalizar essa conta?

Ir trabalhar satisfeito(a) e motivado(a) não é a mesma coisa que dizer que você nunca irá se estressar com o seu trabalho. Fazer aquilo que se ama também envolve atividades desagradáveis.”Escolha um trabalho que você ama e não terás que trabalhar um dia sequer” é uma das frases mais falaciosas que nos contaram. Será mesmo que Confúcio disse isso? Eu amei montar o meu consultório, pensar a decoração e escolher cada item dele mas não é com esse mesmo estado de espírito que eu pago a anuidade do meu conselho profissional, realizo a manutenção do consultório, faço faxina e etc. Muitos psicólogos amam atender seus pacientes mas tem ojeriza a parte burocrática que envolve planilhas, recibos, divulgação/marketing e outras atividades contábeis também pertinentes a prática clínica.

Será que todo professor gosta de conselhos de classe e preencher diários? Será que toda arquiteta voltada para concepção e representação de projetos gosta fazer os projetos executivos? Será mesmo que todo advogado gostar de ir quase todos os dias ao Fórum? Isso vale para tudo! Dentistas, Designers, Médicos, Músicos… Enfim, toda profissão envolve algum nível de desgaste e trabalho chato.

A diferença está entre gostar do que se faz, sentir que estar na profissão certa  e se arrastar todos os dias para um ambiente que te faz sofrer e que aos poucos destrói sua energia e qualidade de vida.
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Acertar na profissão também não é sinônimo de que as demais áreas da sua vida fluirão automaticamente, que seria um outro lado daquela postura compensatória. Saiba: cada um dos problemas que você tem hoje continuarão presentes na sua vida – e esperando você lidar com eles – mesmo que você faça o que você ama. O ponto é que o brilho no olhar e a centelha interna diante da carreira escolhida, tornam toda a parte chata minimamente tolerável e as dificuldades passam a lapidar a postura profissional e desenvolver crescimento, maturidade e, veja só, a certeza de estar no caminho certo.

Uma coisa não resolve a outra. Ter um esposo que lembra a data do primeiro beijo e comemora essa data não muda a questão de esterilidade do casal.  E se isso não é um problema, o ‘mas’ também não cabe. Você entende o que eu quero dizer? ⠀

Há 5 anos um professor de Harvard esteve no Brasil apresentando uma pesquisa sobre a relação que as pessoas tem com o próprio trabalho. Raj Sisodia observou que 72% das pessoas não estão satisfeitas com o próprio trabalho. Se você se sente assim, saiba que não é o único. Os motivos para tal  são diversos: salário, benefícios, ambiente, chefe ruim, atividades, entre tantos outros, mas o pior de todos é quando você não consegue ver o propósito de levantar e sair para trabalhar ou quando não existe mais nenhuma motivação (motivo+ação) de fazer o que está fazendo. Claro que não é realista esperar ser feliz o tempo todo e fazer somente o que se ama, o ideal é que exista um equilíbrio e que as vantagens superem os problemas, aponta o pesquisador.

Assuma a responsabilidade do caminho que você escolheu trilhar. Não há garantias prévias  de retorno financeiro em carreira nenhuma. Avalie muito bem o que é dito acerca dessa tema pois o mercado é volátil. ‘Escolher uma profissão que esteja de acordo com os nossos gostos e aptidões e ainda prestar atenção no mercado de trabalho é um desafio e tanto, sendo o nosso um cenário tão concorrido e seletivo’ e líquido; nada é para sempre. Você já ouviu dizer que concurso público é estabilidade na certa ou que o empreendedorismo é chave para o sucesso e etc, ceto? Também já ouviu histórias de quem largou  tudo, inclusive uma carreira estável, para fazer aquilo que ama, certo? Há receita para o sucesso? Não. O que deu certo para um, dará certo para você? Não.

Isso nos mostra que nem tudo é definitivo e que às vezes a própria escolha profissional não precisa ser. Acho que já falei em algum texto que eu entrei na faculdade de Psicologia certa de que seria Psicóloga Infantil ou trabalharia em escolas; hoje eu não atendo crianças e a posição que ocupo no corpo escolar é outra. Não temos como prever o futuro para então decidir no tempo presente, então o melhor caminho é a autoconsciência de desejos e necessidades. Não deixe que a escolha por uma carreira, a manutenção de um projeto de vida ou a mudança em algum deles seja um peso. Nessa direção, pode se fazer necessário um suporte profissional para te ajudar a entender quais as reais dificuldades e insatisfações.

Com isso, não quero dizer que você precisa ser displicente ou irresponsável mas, se está escolhendo conscientemente, considere a possibilidade de que um dia seja necessário se reinventar. Pense muito bem, dê a sua vida a importância que ela verdadeiramente tem. Idealmente o trabalho não deve ser um sacrifício mas toda posição laboral envolve sacrifício. Há quem diga que salário depende de trabalho bem feito, se você é bom no que faz, vai achar quem te pague bem. O que você pensa sobre isso?

Alguns parágrafos acima falei sobre assumir a responsabilidade pela construção do caminho a ser trilhado e das consequências de nossas escolhas. Isso vai de encontro a sensação de piloto automático constante que às vezes você experimenta. Pode ser que tudo o que você faz pareça ter perdido o sentido, ou esteja te levando para outros caminhos, bem diferentes dos que você  havia traçado.

Se imagine lá na frente, como um(a) profissional realizado(a) e bem sucedido(a), vivendo a carreira dos sonhos.

O que você vê? O que você sente? O que você ouve?

Pode parecer difícil atingir a realização pessoa e profissional mas estar atento ao que você pensa, sente e suas ações no mundo pode te ajudar a estar saudavelmente no processo na vida. Falar em atingir um ponto, nos coloca numa postura de que o caminho ou é sofrido ou não tem valor e importância pois o que importa é o objetivo final mas a realização se constrói no caminhar, não deposite a salvação apenas no ponto de chegada. Se pensar assim, certamente você experimentará algum nível de frustração e o caminho será mais sofrido. Para dizer que leu um livro, é necessário ter lido as frases, páginas e capítulos. Busque ter (ver!) no processo a sua satisfação e então aprenda com a caminhada e sinta nela pequenas e importantes doses daquilo que você almeja lá no final.

Deixo mais essa leitura para você,

 


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