Ser útil ou ser produtiva?

22 abr , 2020 Psicologia

Quando eu faço muitos bolos para uma fábrica eu estou sendo produtiva. Quando eu faço um bolo para lanchar a tarde com minha família eu estou sendo útil. O que interfere não a é quantidade, pois eu poderia fazer vários  bolos para um evento e me sentir útil ao passo em que eu poderia fazer apenas um bolo e me sentir produtiva. Você sabe qual é a diferença?

Uma das diferenças está entre fazer coisas por um propósito externo ou fazer coisas por um sentido interno.Preciso dizer desde que já que não quero que você pense que um é melhor que outro. São aspectos diferentes e igualmente necessários para uma vida saudável.

Você já se sentiu inútil, sem valor ou ficou com um sensação forte de que apesar de fazer muitas coisas parecia que você não estava produzindo nada? Se sim, nessas horas você deve avaliar o sentido das coisas, isso significa se perguntar o porquê de estar fazendo tudo o que você faz. O segundo passo é organizar as suas atividades buscando entender onde você se sente útil e onde você se sente produtivo.

 

 

Frequentemente eu ouço no consultório as pessoas trazendo queixas que tem origem nessa confusão entre ser produtivo e ser útil e aí misturam tudo! “Eu entendi que você não leu os textos da faculdade mas se sentir uma inútil por isso não parece muito justo com você. Pergunte ao seu namorado se ele acha isso de você -principalmente depois de você ter preparado uma refeição com muto carinho naquele dia- e me diz a resposta…” ou então “Você está se sentindo sem valor por não ter feito a faxina na casa que deveria ter acontecido naquela noite mas e se eu te lembrar que você não fez isso porque optou sair encontrar um grande amigo para matar a saudade e conhecer um restaurante novo, você continua uma pessoa sem valor?Eu concordo que a faxina não foi feita mas isso não faz de você uma pessoa sem valor”.

Essas situações são pequenos  exemplos de como eu poderia  trabalhar a organização emocional de alguém, caso essas queixas aparecessem no consultório (lembrando que são exemplos fictícios!). Depois de colocar cada coisa no seu lugar, parece que as pessoas se libertam, se autorizam, se responsabilizam pela escolha feita e aí sim conseguem se dispor a fazer aquilo que se queixaram de uma maneira mais disciplinada. Entender que a improdutividade não te faz inútil e que a inutilidade não te faz improdutivo é um gás e tanto!

“Agora que você já sabe que sua utilidade não se resume aos textos da faculdade ou a faxina em dia, de que maneira você pode parar de semear culpa e cobrança para poder ter mais disciplina e organização com os seus afazeres?” Quando eu pergunto assim parece até que a pessoa ficou com muita vontade de ler os textos da faculdade ou ir lavar o banheiro, acredita?! Eu vejo essa animação diante dos meus olhos! Sabe o que aconteceu? O meu paciente se organizou e entendeu que ser útil não é exclusivamente ser produtivo. A imagem abaixo tenta ilustrar um pouco essas diferenças. Veja:

Alguns itens são mais presentes na sensação de ser útil e outras na de ser produtiva. Na utilidade a prioridade e o mais importante pode ser o sentir enquanto na utilidade o mais importante pode ser o fazer; uma pode trazer satisfação pessoal enquanto outra traz  o sustento material; numa você faz por querer e noutra por dever; uma envolve pessoas mais próximas e a outra alcança a sociedade de maneira geral; uma você pode fazer por amor ao próximo e outra por amor próprio; numa você faz por parceria e noutra por competência; em uma você pode se sentir muito especial e importante enquanto em outra a percepção é de ser só mais uma, substituível ; uma te dá o senso de pertencimento e outra o senso de cumprir uma atividade e por aí vai…

Importante ressaltar que a produtividade não é vilã, todas as características que a definem são boas. Da mesma maneira a utilidade não é a única que importa ou a receita de vida perfeita. Todos os itens são importantes. Essa confusão pode acontecer por estarmos imersos numa sociedade que atrela à produtividade noções de sucesso, vida bem sucedida e realização pessoal por ela se ligar diretamente ao trabalho e ao dinheiro. Já vimos isso no post do três casamentos, lembra? Como você se sente quando não tem dinheiro? Quando está desempregado/a? A nossa realidade social enfatiza muito mais esses marcadores da produtividade do que os aspectos da utilidade e com isso o nosso valor passa ser unicamente construído em cima das características produtivas.

Então a solução é desenvolver uma vida útil e eliminar a produtividade? Não. A melhor saída é desenvolver uma vida útil e diminuir a centralidade da vida produtiva em nossa maneira de viver. Uma vida saudável tem em seu cotidiano atividades úteis e produtivas. O excesso de produtividade gera exaustão e estresse enquanto o excesso de utilidade gera frustração e carência.

A profissão por exemplo pode ser uma escolha de vida que una esses dois itens. Você pode ter uma profissão que, além de estar enquadrada na cadeia produtiva, pode ter um sentido de realização pessoal muito grande ao fazer com que você se sinta útil (e produtiva?o) ao exercê-la.

Se você só trabalha e não se sente útil, você pode ter uma vida sem sentido (ambiente emocional perfeito para a depressão e o burnout, por exemplo); se você se sente útil mas não experimenta ter uma vida produtiva você pode se sentir incapaz, incompetente e viver ansioso.  A chave é o equilíbrio.

Ter uma vida onde a produtividade e a utilidade estejam presentes não significa que seja necessariamente no mesmo âmbito de vida. Com isso não estou querendo dizer que utilidade e produtividade devem estar juntas no mesmo lugar: no trabalho ou na maternidade ou na experiência religiosa ou só no casamento. Você precisa ter os dois elementos na sua vida como um todo. Você pode ter um trabalho cujo objetivo é ganhar dinheiro mas é ter uma ocupação ou uma função na vida que faça com que você se sinta uma pessoa útil. Pode ser a maternidade ou a paternidade, você pode prestar algum serviço voluntário e etc. Você precisa dos dois elementos na sua vida mas não necessariamente vindos do mesmo lugar. Podem estar no mesmo lugar mas  também podem estar em papéis de diferente.

Então procure se respeitar e se tratar com mais carinho. Agora que você entendeu procure se conhecer melhor para poder se organizar e não fazer essas confusões extremamente prejudiciais a sua saúde mental e ao cuidado com as suas emoções. Se não souber fazer isso sozinha/o, conte com um psicólogo para ajudar você e te acompanhar nesse processo. Espero muito que esse post tenha te ajudado!

Com carinho,


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *